quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Alerta LX

Publicado no Jornal "A Capital" a 10 Julho 2005

Lisboa é uma cidade bonita!
Ou melhor, tem tudo para ser bonita: um rio e o mar que anda por perto; mais de meia dúzia de colinas que animam a paisagem de casario e deixam lugar aos miradouros; uma intrincada teia de ruas com interessantes exemplares de arquitectura e alguns belos mas despovoados jardins.
A maior parte de nós nasceu e conhece, revê-se, num cenário de cidade.
Sabe-lhe os cantos, os atalhos, reconhece as zonas, as fronteiras. Mas, tal como acontece com as pessoas, as rugas das cidades que envelhecem connosco tornam-se invisíveis. Habituamo-nos às pequenas diferenças que vão surgindo e alterando a sua face.

A imagem das cidades advém fundamentalmente do modelo urbanístico (organização do espaço), das intervenções arquitectónicas (com estilos de épocas diferentes, monumentos e edifícios singulares) e da caracterização do espaço público (passeios, mobiliário urbano, sinalização).
E, claro, depende das pessoas. Do que elas fazem e permitem fazer.
Cidadãos e governantes. Os primeiros quando preferem o interesse próprio imediato sobre o do conjunto e os segundos quando se preocupam apenas com o curto prazo e show-off.
Se o domínio do automóvel, que arrebatou espaço às ruas e passeios, ou a desertificação de habitantes proporcional à invasão de “laborantes” levaram a que a imagem de Lisboa se degradasse, a ausência de normas ou senso na sua aplicação e fiscalização fazem o que faltava.

As intervenções de carácter urbanístico (relativas ao desenho e estrutura geral da cidade) são escassas e difíceis de levar a cabo. Surgem por vezes em virtude de catástrofes – como aconteceu após o terramoto pelas mãos do Marquês de Pombal e a equipa da Casa do Risco das Reais Obras Públicas de Lisboa –, para evidenciarem o poder político – caso do Estado Novo -, ou pelo empenho de governantes – como sucedeu, num certo sentido, com a Expo98.

Já o controlo sobre a arquitectura parece ser cada vez mais difícil: à degradação dos edifícios por anos de abandono, poluição e adendas (marquises, toldos, fios, graffitis e publicidade) somam-se a heterogeneidade e fragmentação das novas construções, cujos bons exemplos se perdem no conjunto desordenado.

Provavelmente, só o espaço público nos permite criar uma identidade própria e um espírito de lugar.
Para alterar a imagem de falta de unidade e coerência que assola Lisboa - e que não a promove nem dignifica - temos de atentar no que pode contribuir para criar essa identidade que lhe escapa, e recuperar os detalhes que a valorizam e que, em tantas situações, se estão a perder.

Na década de 90, a cidade inglesa de Bristol (que tinha atingido um dos períodos de maior desenvolvimento na sua história) reconheceu a necessidade urgente de estabelecer um programa de identidade que ajudasse simultaneamente a criar alguma ordem na sinalização e informação a prestar a visitantes e residentes.

Por iniciativa do “City Council” um grupo de peritos de diversas áreas (urbanismo, geografia social, psicologia ambiental, design de comunicação, entre outros), envolvendo diversos departamentos da cidade, desenhou um plano de intervenção sempre centrado no utilizador e que se pretendia aberto, isto é, actualizável, reprogramável, adicionável. (http://www.bristollegiblecity.info/).

A intervenção, como sempre acontece nestes casos, tem muito de invisível a suportar o que depois se materializa. Fundamentalmente foi infraestruturado um sistema de localização, orientação e informação. Que é obra!
As transformações passaram pela criação de um tipo de letra específico utilizado em todos os suportes de informação; de um conjunto de pictogramas facilmente reconhecíveis e uma paleta de cores com o azul de Bristol (presente em edifícios e pontes, na presença do mar e na construção em aço); de painéis de informação, sinais direccionais e algum mobiliário urbano.
Nada de logotipos e verniz. Uma intervenção estruturante e transversal. Que a todos envolvia e pedia contributos e participação.
A reboque deste plano vieram as transformações sobre o trânsito, a racionalização de percursos pedestres, a recuperação de edifícios e monumentos emblemáticos…
É um projecto ambicioso, mas de grande retorno!

Voltando a Lisboa…num retrato breve da actual situação o que encontramos?
Ruas com linhas de eléctrico desactivadas que permanecem aos pedaços no alcatrão; buracos ou remendos que o transformam em verdadeira manta de retalhos ou mostruário de materiais; mau estado dos passeios (é difícil encontrar um exemplo de calçada portuguesa que não tenha pedras soltas, pilaretes tortos, ervas daninhas, lixo ou restos de areia de obras “terminadas”); sinalização tanto excessiva quanto inadequada. Publicidade decidamente excessiva (agora até os retratos dos candidatos ocupam abusadoramente muitos dos passeios em placards de aspecto precário). Informação pouca e colocada sem critérios muito evidentes. Mobiliário urbano que tem de tudo: em variedade e estado de conservação (pelo menos 60! variedades de candeeiros de iluminação pública – algumas lado a lado - , uma dúzia de tipos de pilaretes anti-estacionamento, muitos modelos de bancos de jardim e vários géneros de paragem de autocarro).

Será que os responsáveis não dão pela falta de uma imagem coordenada na cidade, importante para quem a visita ou nela vive, e com ela se quer identificar?
Porque se sente esta falta de cuidados e coerência no espaço público?
O Regulamento Municipal sobre a Gestão do Espaço Público contém apenas algumas normas básicas sobre a colocação de quiosques e esplanadas. Nada diz sobre os critérios de aquisição ou criação, colocação e manutenção de mobiliário urbano; muito menos sobre uma ideia mais alargada de identidade ou informação no espaço público.
Os “olheiros” - funcionários do programa Lx Alerta que circulam pela cidade em Smarts para verificar se existem problemas que necessitem de intervenção da Câmara - ou o fazem de olhos fechados, ou têm instruções para não procurar.
Planos sobre a coordenação da imagem da cidade? Desconhecemos.

Estamos em ano de eleições autárquicas.
É altura de conhecer o que penam os candidatos sobre a Gestão do Espaço Público e da imagem da cidade.
Venham os planos…

2 comentários:

bruno disse...

muito bom!
gostei mesmo!
sério, e não é da boca para fora!
um lugar do pensar, e, de bónus, onde se versa sobre design, ou assuntos afins.
quanto às subtilezas nas alterações das cidades, elas podem transformar-se, para quem está fora do país, como eu, em peças fora do lugar.
um pouco à imagem de um papel que deixamos de uma forma e que encontramos "arrumada" (se encontrarmos) por alguém que se deu ao trabalho de lhe encontrar um sítio mais apropriado.

Voltar a casa, após uma certa ausência, é encontrar um monte de papeis fora do sítio, depois é preciso tentar encontrar, e reconhecer os textos que neles se lêem, algumas vezes não entendemos o contexto, não mais...

ah, lisboa!

bom, minha gente, voltarei, (bela descoberta, assi para fim de ano, nada mau)

obrigado pela pequena viagem que me ofereceram...

abs
deixa-me cá marcar no mapa o caminho para este lugar.

bruno disse...

acabei de vos linkar lá no meu e acabei de perceber que vocês já não aparecem há algum tempo, será que voltam?
espero que sim!
até breve...